Publicado por: Alba Bloechliger | 23/09/2009

A música instrumental no louvor (Parte 1)

 

Meu passado em relação à música no louvor

Cresci entre e sempre tinha as minhas associações religiosas com cristãos que não utilizavam instrumentos mecânicos no louvor. Não posso falar por cada indivíduo, porém como uma comunidade, estes cristãos acreditavam que a música instrumental no louvor era errada. Não por uma questão de conveniência nem de preferência pessoal, mas como uma questão de princípio e convicção, eles contestaram a utilização da música instrumental no louvor.

Então, eu mais ou menos herdei esta posição. Ficava emocionado com as histórias de pessoas de fé examinando as Escrituras para voltar à ordem antiga. Ficava cativado pela idéia de restaurar o cristianismo apostólico. Pensava que os nossos antepassados já tinham, há muito tempo, estudado todos os assuntos que importavam e que tinham praticamente descoberto a verdade em todos eles. Há muito tempo, abandonei qualquer pensamento de que os meus colegas religiosos estavam certos em tudo. Não é isso que nos une. É um compromisso fundamental ao domínio de Cristo que nós compartilhamos. Uma atitude básica para com o Senhor Jesus é o que nos une.

Eu concordo inteiramente e aprecio o ponto de Robert Turner de que nunca se pode falar da restauração no passado. É um processo contínuo, sem fim. Nunca devemos considerar qualquer posição que tenhamos como se fosse uma vaca sagrada na qual não se pode tocar, ou que não está sujeita ao questionamento ou a examinação.

Direi, contudo, quando vem à questão da música, que o meu próprio estudo das Escrituras e a re-examinação me trouxe à convicção profundamente enraizada que os meus colegas que têm contrariado a música instrumental no louvor não chegaram à sua posição sem pensamento e estudo sério das Escrituras. Eles tinham motivos bons pela sua posição – razões que estavam totalmente baseadas na revelação que Deus fez de si mesmo e da sua vontade.

Não é uma nova descoberta

De fato, algumas pessoas podem se surpreender que a nossa posição em relação à música não foi uma que se originou conosco. Hoje, somos uma pequena minoria em relação a este assunto e esta prática. Mas não fomos os primeiros a chegar a essa conclusão sobre o louvor. João Calvino se opôs a música instrumental no louvor. Assim fizeram Martinho Lutero, João Wesley e muitos outros reformadores. Estes homens se expressaram de maneira tão firme a respeito do assunto que duvido que conseguiriam louvar junto com a maioria dos seus descendentes espirituais modernos. João Calvino provavelmente não conseguiria louvar com a maioria dos calvinistas modernos. Lutero provavelmente não conseguiria louvar com os luteranos. Wesley provavelmente não louvaria com os wesleyanos.

Um dos pontos mais impressionantes feito pelo presbiteriano John Girardeau (em Instrumental Music in Public Worship) é que a música instrumental entrou em praticamente todas as denominações como uma inovação, e quase sempre havia um elemento que lutava para mantê-la fora. Foi forçada, apesar das objeções dos oponentes, e, em muitos casos, o resultado foi a divisão.

Você conhece o termo a capella? É um termo técnico para a música vocal que não é acompanhada por instrumentos mecânicos. Suponho que a maioria das pessoas compreende isso. Mas você também compreende que o termo vem do italiano antigo e literalmente significa na maneira da capela ou da igreja? A música vocal, cânticos sem acompanhamento mecânico, era o estilo da igreja. A música instrumental não era o estilo da igreja, mas uma perversão da música típica da igreja e uma inovação. A música que é mais freqüentemente utilizada nas igrejas hoje pode ser do estilo do antigo judaísmo; pode ser do estilo de um ritual pagão; pode até mesmo lembrar o estilo do teatro, da danceteria ou do show de rock. Não é o estilo da igreja. É uma perversão.

Então a maioria daqueles que hoje utilizam a música instrumental no louvor não estão sendo fiéis aos seus antepassados espirituais. Com certeza, a questão mais importante é se estão também indo contra a autoridade da Bíblia; e é esta a questão que pretendo discutir. Calvino não foi nem apóstolo nem profeta. Nem foi Lutero, Wesley ou Campbell. As suas práticas não estabelecem precedentes para aqueles que vieram depois. Mas estes homens foram contra a música instrumental no louvor porque compreenderam que era contrária ao desejo revelado de Deus. Estavam certos ou errados? Certamente ninguém que seriamente quer agradar ao Senhor pode ver esta questão com indiferença. De qualquer forma, estando em tal companhia, não espero ser tratado como dissidente ou esquisito quando falo deste assunto.

Histórico em relação a este trabalho

Não alego que a minha apresentação seja o produto de pesquisa estudiosa. É o fruto de ler o Velho Testamento em dois anos consecutivos, com atenção especial às referências ao louvor e à música. É uma abordagem Bíblica e histórica ao assunto. Simplesmente tentei esboçar a história da música no louvor até onde se têm preservado a história na Bíblia.

Se alguém perguntasse porque não utilizamos música instrumental no louvor, a maioria dos discípulos que tivessem um bom entendimento provavelmente responderia mais ou menos assim: Nós somos discípulos de Jesus Cristo, e o nosso Mestre não nos ensinou a utilizar a música instrumental no louvor. Jesus não a autorizou, nem pessoalmente, nem pelos seus apóstolos escolhidos. O Novo Testamento é silencioso em relação à utilização de música instrumental no louvor da igreja. Entenda bem, o Novo Testamento não é silencioso em relação à música. A igreja apostólica tinha música – música vocal, ou cânticos. Mas o Novo Testamento não dá exemplo nenhum de cristãos louvando utilizando música instrumental. Nem há evidência de que os cristãos foram ensinados pelos apóstolos a utilizarem a música instrumental no louvor.

Esta é uma afirmação justa do caso. A música instrumental é uma inovação humana. É comparável ao “fogo estranho” que Nadabe e Abiú ofereceram no altar (Levítico 10:1). É um daqueles casos nos quais igrejas não seguiram a direção do cabeça da igreja, mas tomaram as decisões próprias.

Agora muitas pessoas se vêem obrigadas a conceder que há sim silêncio no Novo Testamento a respeito. Mas pensam que este silêncio não seja importante. Não tomam este silêncio por uma indicação de que a música instrumental no louvor fosse estranha à vontade de Cristo. Podem até discutir que não foi necessário mencioná-la especificamente, pois os judeus haviam se acostumado a utilizar a música instrumental no louvor e simplesmente continuaram fazendo o que faziam. Podem alegar que somos obrigados a provar que a sua utilização foi descontinuada ao invés de chamá-los para justificar a sua utilização.

Acredito que o silêncio do Novo Testamento seja significante. Porém, o meu argumento não se baseia meramente no silêncio das Escrituras. É fundada não somente no que a Bíblia não diz, mas também no que diz. O que a Bíblia diz é o que torna o silêncio do Novo Testamento significante. Vou defender que o silêncio do Novo Testamento deve ser avaliado ao lado da história bíblica, levando ao período do Novo Testamento. Defenderei, mais ainda, que o silêncio do Novo Testamento deve ser julgado na luz dos ensinamentos positivos do Novo Testamento sobre o louvor. Concluirei que o silêncio do Novo Testamento, quando visto na frente deste contexto e ambiente, provê fortes evidências de que Deus não queria que a música instrumental fosse utilizada no louvor da igreja; que a música instrumental é estranha à mente e ao propósito de Deus com referência ao louvor da igreja; que enquanto pode se encaixar bem na época em que Deus lidava com crianças, não é adequada para a época em que ele lida com filhos adultos em Cristo (Gálatas 4:1-7). Resumindo, é este contexto e ambiente que tornam o silêncio do Novo Testamento tão notável.

Com estas introduções explanatórias diante de nós, devemos iniciar considerando as evidências do Velho Testamento em relação à música no louvor.

A música antes de Davi

Nada de real significância em relação à música no louvor é encontrada no Velho Testamento até a época de Davi. Jubal foi chamado “o pai de todos os que tocam harpa e flauta” (Gênesis 4:21), que, ao menos, indica que a música mecânica é de origem muito antiga. Labão expressou o remorso a Jacó, que havia saído de repente em segredo de Harã, que ele não teve oportunidade de despedi-lo “com alegria, e com cânticos, e com tamboril, e com harpa” (Gênesis 31:27). O cruzamento triunfante do Mar Vermelho foi comemorado com uma canção de louvor a Jeová, que é chamado de “minha força e o meu cântico” (Êxodo 15:2). “A profetisa Miriã, irmã de Arão, tomou um tamborim, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com danças” (Êxodo 15:20). Miriã respondeu às mulheres com uma chamada a cantar a Jeová (v. 21). O som de uma trombeta foi ouvido no Monte Sinai (Êxodo 19:13,16,19; 20:18). O som do canto foi ouvido por Moisés ligado ao incidente do bezerro de ouro (Êxodo 32:18). Israel cantou um cântico no deserto sobre um poço que Jeová lhes providenciara (Números 21:17). Por ordem de Jeová, Moisés ensinou a Israel um cântico que serviria como testemunha de Jeová contra Israel no evento da sua apostasia futura (Deuteronômio 31:19 – 32:47).

Débora comemorou a vitória sobre os cananéus com um canto de louvor a Jeová (Juízes 5:1,3,12). A filha de Jefté o cumprimentou na sua volta da batalha “com adufes e com danças” (Juízes 11:3). Depois de ser ungido por Samuel, Saul foi ao encontro de um bando de profetas, que estariam profetizando, que deve ter sido uma espécie de canto ou salmodia, já que foi feito com “saltérios, e tambores, e flautas, e harpas” (1 Samuel 10:5; confere 1 Crônicas 25:1). [Incidentalmente, estes versículos podem nos ajudar a compreender a natureza das profecias mencionadas em 1 Coríntios 11:4; confere 14:15.]

Isso nos traz a Davi. Não parece ter tido qualquer utilização organizada da música no louvor antes de Davi. James Millar faz uma observação que parece concordar com a minha própria leitura do Velho Testamento: “De longe a evidência mais importante do valor dado à música pelos hebreus é concedida pelo lugar dela no serviço divino. É verdade que nada é dito dela no Pentateuco relacionado com a consagração do tabernáculo, ou a instituição dos vários sacrifícios ou festivais.” Millar pensou, contudo, que esta omissão “não prova nada. …Em dias mais tardios, em todos os eventos, a música formava uma parte essencial do louvor nacional de Jeová, e arranjos elaborados foram feitos para a sua apresentação correta e impressionante.”  [International Standard Bible Encyclopedia, III, 2095.]

Na última parte Millar está se referindo aos arranjos pelo louvor organizado a partir dos dias de Davi.

Davi, o músico

D esde quase o nosso primeiro encontro com Davi o conhecemos como músico. Quando o “espírito maligno de Jeová” começou a incomodar o Rei Saul, os seus conselheiros sugeriram que ele buscasse “um homem que saiba tocar harpa” que pudesse contrariar os efeitos do espírito maligno com a sua música (1 Samuel 16:16). Desta maneira, Davi, que já havia sido ungido secretamente como o substituto de Saul, veio à coorte de Saul como um “que sabe tocar” a harpa (versículos 18 e 23; confira 18:10). Mas Davi também era “forte e valente, homem de guerra” (16:18), e depois da derrota de Golias, chamou a atenção da nação como líder do exército de Saul. A música também foi mencionada nesta ligação, pois “as mulheres de todas as cidades de Israel saíram ao encontro do rei Saul, cantando e dançando, com tambores, com júbilo e com instrumentos de música” (18:6). Mas os seus cantos louvaram a Davi mais do que a Saul, e levou a queda de Davi do favor e da sua perseguição por parte de Saul.

O serviço do templo organizado por Davi

A música se tornou cada vez mais importante no reinado de Davi. Depois da conquista de Jerusalém, trazer a arca da aliança a Jerusalém foi comemorado com cânticos e todos os tipos de instrumentos musicais, tocados por Davi e todo Israel. 
 [Tanto na primeira tentativa fracassada (2 Samuel 6:5; 1 Crônicas 13:8) como na segunda tentativa bem-sucedida (1 Crônicas 15).]
Depois que a arca foi trazida a Jerusalém, Davi estabeleceu uma organização elaborada dos levitas para “dirigir o canto na Casa do SENHOR … Ministravam diante do tabernáculo da tenda da congregação com cânticos, até que Salomão edificou a Casa do SENHOR em Jerusalém” (1 Crônicas 6:31-48; confere 9:33; 16:4-43).


Deus não permitiu que Davi construísse o templo como ele desejava. Mas foi Davi quem organizou os sacerdotes e os levitas em grupos para o serviço do templo (1 Crônicas 23-26), e esta organização foi observada depois da construção do templo por Salomão. Entre estes arranjos feitos por Davi quando ele era “já velho e farto de dias” (1 Crônicas 23:1) houve uma organização elaborada dos levitas para o serviço de canto ligado ao templo (1 Crônicas 25; confere 23:5). Preste atenção em algumas das afirmações que descrevem esta função.

“Quatro mil para louvarem o SENHOR” com instrumentos feitos por Davi com este propósito (1 Crônicas 23:5). Certos levitas foram separados para “profetizarem com harpas, alaúdes e címbalos” (1 Crônicas 25:1). Os filhos de Asafe foram colocados “sob a direção deste, que exercia o seu ministério debaixo das ordens do rei” (25:2). Os filhos de Jedutum foram colocados “sob a direção de Jedutum, seu pai, que profetizava com harpas, em ações de graças e louvores ao SENHOR” (25:3). Os filhos (e, aparentemente, as filhas também) de Hemã estavam envolvidos: “Todos estes estavam sob a direção respectivamente de seus pais, para o canto da Casa do SENHOR, com címbalos, alaúdes e harpas, para o ministério da Casa de Deus, estando Asafe, Jedutum e Hemã debaixo das ordens do rei” (25:4-6). As pessoas eram treinadas com este propósito: “O número deles, juntamente com seus irmãos instruídos no canto do SENHOR, todos eles mestres, era de duzentos e oitenta e oito” (25:7).

A construção do templo foi deixada para Salomão. Mas 1 Crônicas, capítulos 21-29, não nos deixa dúvida de quanto Davi tinha o templo e sua organização no coração. O molde para o templo foi revelado a Davi, que o entregou a Salomão, junto com várias exortações a respeito deste projeto que lhe seria confiado. Davi colecionava materiais a serem utilizados na construção do templo. E foi Davi que havia organizado os sacerdotes e os levitas para o serviço do templo. Mas pelos nossos propósitos hoje, é mais importante reparar que a utilização sistemática da música no louvor, incluindo a música instrumental, teve a sua origem no período final do reinado de Davi. Não há evidência de uma utilização sistemática da música ligada ao louvor no Velho Testamento até que Davi organizou os levitas para o serviço de canto ligado primeiro ao tabernáculo e depois ao templo. Como veremos, as referências posteriores à música no louvor também a ligarão a Davi.

O reinado de Salomão

A primeira metade do reinado de Salomão deve ter sido praticamente devotada à construção do templo (1 Reis 6-9). 2 Crônicas 5:11-14 descreve os arranjos musicais na dedicação do templo. Mas para os nossos propósitos, 2 Crônicas 7:6 é de importância especial: “Os sacerdotes estavam nos seus devidos lugares, como também os levitas com os instrumentos músicos do SENHOR, que o rei Davi tinha feito para deles se utilizar nas ações de graças ao SENHOR … Os sacerdotes que tocavam as trombetas estavam defronte deles, e todo o Israel se mantinha em pé.”

Então repare em 2 Crônicas 8:14: “Segundo a ordem de Davi, seu pai, dispôs os turnos dos sacerdotes nos seus ministérios, como também os dos levitas para os seus cargos, para louvarem a Deus e servirem diante dos sacerdotes, segundo o dever de cada dia, e os porteiros pelos seus turnos a cada porta; porque tal era a ordem de Davi, o homem de Deus. Não se desviaram do que ordenara o rei aos sacerdotes e levitas, em coisa nenhuma, nem acerca dos tesouros”.

Finalmente, 2 Crônicas 9:11 diz que Salomão “fez…harpas e alaúdes para os cantores.” Mas não pode haver dúvida a respeito disso. O serviço de canto do reinado de Salomão foi o que Davi havia estabelecido.

Reis posteriores: Três movimentos de reforma

E m relação aos reis posteriores, 2 Crônicas 20 dá algumas referências aos arranjos musicais no reinado de Josafá (versículos 19,21,22,28). Mas estes não dão nenhuma evidência que aponte para um lado ou para o outro. Contudo, três reformas que ocorreram em Judá depois dos períodos de apostasia são de interesse especial.

● A reforma de Joiada após a usurpação de Atalia

A primeira vem depois da usurpação de Atalia, a filha do rei israelita Acabe. Atalia foi expulsa pelo sumo sacerdote Joiada, e há duas afirmações em relação a música. O primeiro vem ao proclamar a revolta contra Atalia: “ … e todo o povo da terra se alegrava, e se tocavam trombetas. Também os cantores com os instrumentos músicos dirigiam o canto de louvores” (2 Crônicas 23:13). Mas a segunda afirmação é o mais significante: Como Joiada estava limpando o lugar e restaurando o louvor verdadeiro, 2 Crônicas 23:18 diz: “Entregou Joiada a superintendência da Casa do SENHOR nas mãos dos sacerdotes levitas, a quem Davi designara para o encargo da Casa do SENHOR, para oferecerem os holocaustos do SENHOR, como está escrito na Lei de Moisés, com alegria e com canto, segundo a instituição de Davi.

Então este ponto não pode ser esquecido. Depois de sete anos da usurpação de Atalia, a reforma e a restauração é cumprida pelo apelo a duas fontes. As instruções de como oferecer as ofertas queimadas são encontradas na lei de Moisés. Mas a restauração do serviço musical é baseada na ordem de Davi.

● A reforma de Ezequias

O serviço do templo foi corrompido novamente pelo Rei Acaz. Mas um movimento de reforma foi liderado pelo seu filho Ezequias. Novamente temos evidência em relação a restauração do serviço musical. Ezequias, de acordo com que nos é dito em 2 Crônicas 29:25-28, “estabeleceu os levitas na Casa do SENHOR com címbalos, alaúdes e harpas, segundo mandado de Davi e de Gade, o vidente do rei, e do profeta Natã; porque este mandado veio do SENHOR, por intermédio de seus profetas. Estavam, pois, os levitas em pé com os instrumentos de Davi, e os sacerdotes, com as trombetas. Deu ordem Ezequias que oferecessem o holocausto sobre o altar. Em começando o holocausto, começou também o cântico ao SENHOR com as trombetas, ao som dos instrumentos de Davi, rei de Israel. Toda a congregação se prostrou, quando se entoava o cântico, e as trombetas soavam….” O versículo 30 acrescenta mais uma afirmação significativa: “Então, o rei Ezequias e os príncipes ordenaram aos levitas que louvassem o SENHOR com as palavras de Davi e de Asafe, o vidente. Eles o fizeram com alegria…”

Reparei em mais duas referências à música durante o reinado de Ezequias (2 Crônicas 30:21; 31:2), mas estas não acrescentam algo significante aos nossos propósitos.

● A reforma de Josias

A descrição da restauração do serviço do templo em relação a reforma de Josias concorda com a evidência já apresentada. Encontramos quatro referências:

Entre os levitas supervisionando as restaurações no templo estavam “Todos os levitas peritos em instrumentos músicos” (2 Crônicas 34:13).

As instruções que Josias deu “aos levitas que ensinavam a todo o Israel” incluiu este comentário, “…Preparai-vos segundo as vossas famílias, segundo os vossos turnos, segundo a prescrição de Davi, rei de Israel, e a de Salomão, seu filho” (2 Crônicas 35:3-4).

2 Crônicas 35:15 contêm evidências importantes: “Os cantores, filhos de Asafe, estavam nos seus lugares, segundo o mandado de Davi, e de Asafe, e de Hemã, e de Jedutum, vidente do rei …”

Finalmente, 2 Crônicas 35:25 diz que a memória de Josias foi preservada em canto após a sua morte, mas não fornece nada em relação ao ponto.

O ponto é este: O serviço musical foi instituído por Davi. Quando várias apostasias corromperam o serviço do templo, os reis reformadores que limparam a bagunça não instituíram um novo sistema. Eles simplesmente restauraram o serviço instituído por Davi.

O período da restauração

Finalmente Judá se tornou tão corrupto que a única maneira de Deus salvar a nação foi levando-a pelo castigo severo no exílio. Judá teve que passar por um cativeiro de setenta anos na Babilônia. Mas eventualmente a nação voltou à terra.

Enquanto isso, tudo havia sido desorganizado. Jerusalém e seu templo haviam sido deixados em ruínas. O sistema inteiro estava em desordem. Os sacrifícios, as festas religiosas, o serviço do templo – todos haviam sido descontinuados. Quando as pessoas voltaram a terra natal, o templo teve que ser reconstruído e o sistema inteiro teve que ser restaurado. O que descobrimos ser verdadeiro em relação aos movimentos de reforma que ocorrem anteriormente ao exílio babilônico também foi verdadeiro em relação ao movimento de restauração após o exílio. Os livros de Esdras e Neemias são muito claros em relação a este ponto. Devemos considerar o testemunho destes dois livros em relação a restauração da música do templo.

Esdras 2:41 e 70 mencionam “os cantores” entre aqueles que voltaram do cativeiro. Esdras 3:10 dá testemunho em relação à restauração do serviço de cânticos: “Quando os edificadores lançaram os alicerces do templo do SENHOR, apresentaram-se os sacerdotes, paramentados e com trombetas, e os levitas, filhos de Asafe, com címbalos, para louvarem o SENHOR, segundo as determinações de Davi, rei de Israel. Cantavam alternadamente, louvando e rendendo graças ao SENHOR…”.

Esdras 8:20 fala do mesmo ponto: entre aqueles trazidos da Babilônia para o serviço do templo estavam duzentos e vinte “servidores do templo, que Davi e os príncipes deram para o ministério dos levitas”.

Neemias 12:24 menciona, entre aqueles que voltaram à terra com Zorobabel e Jesua, vários levitas “para louvarem e darem graças, segundo o mandado de Davi” [ou “de acordo com as instruções deixadas pelo rei Davi” (NTLH)]. O livro de Neemias trata da reconstrução do muro que cercava Jerusalém. Em Neemias 12:35-36, certos filhos dos sacerdotes são descritos como participantes na dedicação do muro reconstruído “com os instrumentos músicos de Davi, homem de Deus”.

Então, Neemias 12:44 menciona homens responsáveis pelas ofertas feitas para os sacerdotes e levitas. São descritos como “as porções designadas pela Lei para os sacerdotes e para os levitas; pois Judá estava alegre, porque os sacerdotes e os levitas ministravam ali”. A passagem continua nos versículos 45 e 46: “e executavam o serviço do seu Deus e o da purificação; como também os cantores e porteiros, segundo o mandado de Davi e de seu filho Salomão. Pois já outrora, nos dias de Davi e de Asafe, havia chefes dos cantores, cânticos de louvor e ações de graças a Deus”.

Não há como perdermos o foco. Como em períodos anteriores de reforma e restauração, depois do cativeiro babilônico houve um retorno a dois padrões ou modelos. Um foi a lei de Moisés; o outro foi o serviço sistemático do templo, estabelecido por Davi. Em relação a música, os líderes de Israel no período depois do cativeiro não inventaram um novo sistema. Simplesmente restauraram o plano que fora estabelecido por Davi.

Resumo final do Velho Testamento

Chegamos ao fim do período do Velho Testamento. Está na hora de resumir as nossas descobertas. Tentei esboçar o desenvolvimento histórico da música no louvor. Aqui está o que encontrei:

Não havia utilização organizada ou sistemática da música no louvor até a época de Davi, na qual um sistema elaboradamente organizado foi estabelecido. A ordem estabelecida por Davi foi, então, aceita pelos reis posteriores. Períodos de apostasia freqüentemente desordenaram e corromperam o louvor de Israel. Mas quando reis reformadores vieram ao trono, um retorno sempre ocorreu ao sistema estabelecido por Davi. A destruição babilônica de Jerusalém e o cativeiro que seguiu foi a maior desorganização de todas. Mas quando as pessoas voltaram à terra, novamente o precedente para o serviço musical foi encontrado no sistema de Davi.

Então devemos observar vários pontos significativos em relação ao serviço de canto do Velho Testamento que envolvia a música instrumental. Primeiro, o padrão para este serviço de canto volta a Davi. Segundo, foi ligado a Jerusalém. Terceiro, foi ligado ao templo construído por Salomão e então restaurado depois do cativeiro por Jesua e Zorobabel. Quarto, foi ligado aos levitas. [Depois de ler o meu trabalho, Homer Hailey acrescentou um quinto ponto a qual a música instrumental foi ligada no Velho Testamento – o sacrifício das ofertas queimadas (2 Crônicas 29:27 em diante).]

Este é o pano de fundo contra o qual o ensino do Novo Testamento deve ser avaliado. O silêncio do Novo Testamento em relação a música instrumental no louvor se contrasta muito contra este pano de fundo. Mas quero sugerir que o Novo Testamento não é totalmente silencioso em relação ao louvor. Entrarei neste assunto mais extensamente da próxima vez. Mas tendo entrado tão profundamente nas evidências do Velho Testamento, gostaria de colocar, ao lado destas evidências, pelo menos uma sugestão do rumo que o nosso raciocínio deve tomar.

Por enquanto, considere apenas o testemunho de Jesus em João 4:19-24. Na sua conversa com a mulher no poço, Jesus aponta que Jerusalém, com seu templo, não teria mais o significado que uma vez tinha. O Pai seria louvado, nem no Monte Gerizim, como fizeram os samaritanos, nem em Jerusalém, como fizeram os judeus. Os verdadeiros adoradores louvariam ao Pai em espírito e em verdade, e o lugar seria insignificante.

Os adoradores do Novo Testamento, portanto, não voltam a Davi para um padrão de louvor, como fizeram os reis reformadores e como fizeram os judeus da restauração. Então até onde a significância espiritual está envolvida, Jerusalém não existe mais; o templo não existe mais; os levitas não existem mais; o sistema davídico não existe mais. Assim uma pessoa não pode presumir que já que a música instrumental foi utilizada no sistema davídico que deveria estar no louvor do Novo Testamento. Além disso, a obrigação de apresentar provas certamente fica com aquele que defende ou incentiva a utilização da música instrumental no louvor da igreja. Ele deve provar que é isso que o Senhor da igreja quer. O sistema inteiro que incluía a utilização da música instrumental já não existe mais. Se fracassamos em aprender o que aconteceu na cruz, certamente não perderemos a mensagem de 70 d.C., quando Jerusalém foi destruída e o templo foi reduzido a ruínas tais que nenhuma pedra foi deixada sobre outra (confira Mateus 24:2).

Já que o sistema que incluía a música instrumental acabou, então certamente o peso das provas repousa naqueles que pensam que a música que pertencia ao sistema obsoleto permanece. O peso das provas não está em mim. Tenho provado que o sistema que incluía a música instrumental já não existe. Se alguém pensar que a música instrumental permanece, deve prová-lo citando evidências do Novo Testamento. Este é o peso que ele deve carregar.

Realmente o peso é maior que isso. Mas é um ponto a ser desenvolvido na Parte Dois.

–por L. A. Mott, Jr.


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